Ao contrário da maioria de suas edições recentes, não há um favorito destacado entre os oito indicados este ano na principal categoria do Oscar. Num ano em que a indústria cinematográfica de Hollywood comemorou lucros históricos (US$ 11 bilhões em bilheteria, só nos EUA e Canadá), anabolizados pelo retorno de franquias como Star Wars, Os Vingadores,Jurassic Park e Velozes e Furiosos, a Academia parece ter feito um esforço para agradar a quase todo tipo de público.
Na categoria principal, há dois blockbusters: Mad Max: Estrada da Fúria (que conseguiu dez indicações no total) e Perdido em Marte (sete indicações). O prestígio de Steven Spielberg também foi suficiente para colocar no bolo seu Ponte dos Espiões, que teve recepção discreta, concorrendo em seis categorias, incluindo melhor filme.
Do outro lado do espectro, duas produções independentes e intimistas, o britânico Brooklyn(três indicações), sobre uma jovem imigrante irlandesa que chega a Nova York nos anos 50, eO Quarto de Jack (quatro indicações), que narra a dramática história de uma mãe e seu filho, mantidos em cativeiro. No caso de ambos, estar entre os oito já é o prêmio que vai garantir aos filmes um aumento exponencial de visibilidade.
No meio do caminho estão A Grande Aposta (cinco indicações) e Spotlight (seis indicações), longas que apostam num elenco de atores conhecidos dividindo o protagonismo, e relembram fatos recentes importantes da sociedade norte-americana. O primeiro é uma visão inteligentemente bem-humorada da crise financeira de 2008, enquanto o segundo acompanha o grupo de jornalistas que, em 2002, revelou o escândalo de pedofilia e abusos sexuais da Igreja Católica em Boston.
O Regresso completa a lista dos concorrentes a melhor filme. É também o campeão do ano em número de indicações, com doze, e acaba de ganhar o Globo de Ouro de melhor drama, o que normalmente poderia lhe dar a dianteira da corrida. Porém, vale lembrar que seu diretor, o mexicano Alejandro G. Iñarritu, é o mesmo de Birdman, e é altamente improvável que a Academia premie seguidamente dois filmes do mesmo diretor.
Mesmo a estatueta de melhor ator que parece destinada a Leonardo DiCaprio, o herói de O Regresso, não pode ser ainda dada como certa, dado o histórico de frustrações que o astro tem quando o assunto é Oscar.
#OscarsSoWhite – A exemplo do que aconteceu em 2015 e motivou uma série de protestos, não há presença de negros entre os vinte atores e atrizes indicados aos prêmios de atuação, ou entre os cinco nomeados a melhor diretor e este ano nem mesmo entre os 17 profissionais espalhados entre roteiro original e roteiro adaptado.
Nomes como Will Smith (Um Homem Entre Gigantes), Idris Elba (Beasts of No Nation) e Michael B. Jordan (Creed) eram considerados possíveis concorrentes, mas ficaram de fora. Straight Outta Compton, que conta a trajetória do grupo de rap N.W.A., era outro que chegou a figurar entre as apostas nas categorias de melhor filme e ator/ator coadjuvante, mas acabou com uma solitária indicação a melhor roteiro adaptado, escrito por dois indivíduos brancos, por sinal.
O único consolo é a escolha do comediante Chris Rock como mestre de cerimônia da entrega. Resta saber se ele fará algum comentário sarcástico sobre a questão, que fica a cada ano mais difícil de ser ignorada.
Outra ausência sentida foi Carol, elogiadíssimo drama sobre o romance entre duas mulheres numa sociedade conservadora, que estava nas conversas sobre o Oscar desde sua estreia em Cannes (maio/2015).
Mesmo com seis nomeações, incluindo atriz (Cate Blanchett), atriz coadjuvante (Rooney Mara) e roteiro adaptado, é estranho ver o filme e seu diretor Todd Haynes, homossexual assumido, deixados de lado nas suas respectivas categorias.
Já para os representantes da comunidade latina, o anúncio dos indicados foi um pouco mais favorável. O México pode se orgulhar não apenas de Iñarritú, mas também de ter uma co-produção de seu país com os Estados Unidos entre os documentários, com Cartel Land, de Matthew Heineman.
Mesmo sem Que Horas Ela Volta?, o Brasil também terá seu representante na festa do dia 28 de fevereiro, com o longa de animação O Menino e o Mundo, de Alê Abreu. Entre os curtas de animação, marca presença o chileno Bear Story, de Gabriel Osorio Vargas.
A Colômbia emplacou o primeiro representante de seu cinema na categoria filme estrangeiro, com O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra.
O representante latino tem, no entanto, um páreo duro pela frente. Além do ‘já ganhou’ O Filho de Saul (primeiro longa do húngaro Laszlo Nemes, que chega com um Globo de Ouro e um Prêmio Especial do Júri de Cannes), o francês As Cinco Graças, o único longa da categoria a ser dirigido por uma mulher, a franco-turca Deniz Gamze Ergüven.
Na trama, que começa com a leveza das cores do litoral da Turquia, cinco irmãs adolescentes passam a entender os códigos tácitos que existem em torno de uma sociedade que literalmente vai escondendo a mulher e seus desejos (sejam eles o de navegar na internet ou de sair com o namoradinho ou apenas ir à escola).
Completam a lista A War, do dinamarquês Tobias Lindholm, sobre um soldado dinamarquês em missão no Afeganistão que tem de fazer uma escolha que mudará sua vida; e o jordanoTheeb, de Naji Abu Nowar, que retrata o amadurecimento de dois jovens órfãos beduínos durante o ano de 1916 e marca a primeira indicação da Jordânia ao Oscar.
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