Cronograma de pagamentos e recibo de transferência internacional comprovam que, após troca de mensagens, milhões de dólares foram repassados para fundo de advogado de Eduardo Bolsonaro.

Por Paulo Motoryn, Eduardo Goulart, Leandro Becker e Maurício Moraes

Desde a publicação da primeira reportagem da série Vaza Flávio, um dos esforços de aliados do senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, tem sido convencer o público de que as revelações não se sustentam. Uma das vozes na tentativa de deslegitimar o nosso trabalho tem sido a do comentarista Paulo Figueiredo.


“Começaram com o Intercept dizendo que eram 134 milhões do Vorcaro pro filme. Caiu para 61 milhões no Metrópoles. Depois, 2 milhões no Globo. Já já vocês vão descobrir que NÃO TEM dinheiro do Vorcaro no filme”, escreveu o aliado da família Bolsonaro no X, em 13 de maio.


A tese de discrepância nos valores ganhou força a partir de postagens falsas compartilhadas por parlamentares e páginas bolsonaristas, alegando que o Intercept teria recuado das informações, “pedido desculpas” ou admitido não possuir provas de que Daniel Vorcaro financiou o filme “Dark Horse”, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Isso já foi amplamente refutado.


A alegação é mentirosa por vários motivos, mas o mais importante deles é que a primeira reportagem da nossa série sempre distinguiu dois números importantes para entender a negociata: os 24 milhões de dólares (R$ 134 milhões, em valores convertidos pela cotação da época) negociados por Flávio Bolsonaro com Vorcaro para financiar o filme; e os 10,6 milhões de dólares (equivalentes, naquele período, a R$ 61 milhões) efetivamente pagos.


Uma semana depois, em 20 de maio, Figueiredo questionou se o trabalho do Intercept revelaria, de fato, “transações financeiras”. E acrescentou: “Se não vierem (como Flávio jura e como eu acredito, até o momento), a credibilidade voltará aos poucos”. Pois bem: a edição desta semana da newsletter Cartas Marcadas traz documentos inéditos que comprovam de maneira irrefutável que houve repasses financeiros.


Planilha detalha fluxo de pagamentos

Zettel respondeu logo em seguida: “Vou pra cima do Mineiro. Passei o fluxo pra ele. Achei que ele tava fazendo”. O “Mineiro” citado na troca de mensagens seria Antônio Carlos Freixo Júnior, executivo ligado à Entre Investimentos e Participações, empresa que fez a transferência bancária.

 

Apesar das negativas oficiais, as mensagens indicam haver uma conexão entre Vorcaro e Freixo. Em fevereiro de 2025, segundo registros obtidos pelo Intercept, Zettel perguntou a Vorcaro se poderia “pedir pro Minas” logo após o banqueiro sugerir fazer a operação “via entre”. O telefone de Freixo foi salvo na agenda de contatos de Vorcaro como Mineiro.


Comprovante bancário detalha operação

Outro documento que chama atenção é o comprovante da primeira transferência internacional da operação, emitido pelo sistema SWIFT, utilizado por instituições financeiras para operações entre diferentes países.


O registro é datado de 13 de fevereiro de 2025 e confirma a remessa de 2 milhões de dólares ao Havengate Development Fund LP, controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

Segundo o comprovante, a operação teve como remetente a Entre Investimentos e Participações Ltda. O pagamento foi processado por meio do Banco BS2 e destinado a uma conta do Havengate vinculada ao JPMorgan Chase Bank.


O comprovante contém os códigos de identificação da transferência, os dados das instituições envolvidas, as referências da operação e os registros de liquidação exigidos pelo sistema financeiro internacional.


O extrato registra o que seria a primeira transferência internacional para financiar “Dark Horse” e demonstra o funcionamento na prática da operação descrita nas mensagens.


Esse comprovante,  inclusive, consta em uma série de mensagens trocadas entre Zettel e Vorcaro  sobre dificuldades para concluir a operação. Em 5 de fevereiro, Zettel informou  ao banqueiro que o câmbio do Banco Master estava criando obstáculos para a  transferência destinada ao filme.

Durante a conversa, os dois discutiram alternativas para viabilizar o envio dos recursos ao exterior e acabaram decidindo recorrer à estrutura da Entre Investimentos e Participações Ltda, empresa que aparece como remetente no comprovante de transferência bancária.

 

Embora a Entre Investimentos e Participações e Vorcaro neguem qualquer vínculo societário, de controle ou governança entre as partes, documentos obtidos pelo Intercept e reportagens publicadas por Metrópoles e Estadão sobre investigações em curso indicam haver uma uma conexão operacional e financeira entre o grupo e o banqueiro.

 

Menos de dez dias depois, em 14 de fevereiro, Zettel encaminhou a Vorcaro o comprovante emitido pela rede SWIFT acompanhado de uma única palavra: “Filme!”. A mensagem foi enviada um dia após a liquidação da operação de 2 milhões de dólares destinada ao Havengate Development Fund LP, exatamente a transferência cuja realização vinha sendo discutida nas conversas anteriores.

Outro lado


O Intercept entrou em contato com Paulo Calixto, Thiago Miranda e  Antônio Carlos Freixo Júnior. Também procuramos as defesas de Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro, que estão presos. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.


O Grupo Entre, em nota, informou que “realiza suas operações em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro”. Também disse que a empresa tem “compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento” da lei e está “à disposição das autoridades competentes sempre que necessário”.


Os documentos revelados nesta edição estão longe de encerrar a história. Pelo contrário. Eles ajudam a responder algumas das perguntas levantadas desde a publicação da primeira reportagem da série Vaza Flávio, mas também abrem novas frentes de investigação sobre a origem dos recursos, o papel desempenhado por cada personagem envolvido na operação e o destino final de parte do dinheiro movimentado.


A equipe do Intercept segue investigando e cruzando informações com documentos públicos, registros empresariais e novas fontes. Esse trabalho já permitiu localizar documentos inéditos que não faziam parte das primeiras reportagens e que lançam nova luz sobre as relações financeiras, empresariais e políticas reveladas pelo caso.


Como sempre, a apuração também depende da colaboração de leitores, fontes e denunciantes. Se você possui documentos, mensagens, contratos, gravações, planilhas ou qualquer informação relevante relacionada a esta investigação — ou a qualquer outro tema de interesse público —, entre em contato com o Intercept por meio dos canais disponíveis em nosso site. Todas as orientações para envio seguro de informações estão disponíveis aqui.

Fonte:Intercept_Brasil