Era 7h31 da manhã de um sábado, 13 de junho, quando Maria Eduarda Rodrigues de Freitas postou uma foto no seu perfil no Instagram. Nela, vemos parte da estrutura da Ponte do Esqueleto, em Limeira, no interior de São Paulo. Na legenda, uma frase que, agora, é impossível de ser lida sem que o coração não congele:
“Quem foi o doido que deixou eu vir pular de uma ponte???”
Tinha 21 anos e era estudante de educação física. Na mesma rede, publicou ainda outras duas fotos: em uma vemos uma placa com os dizeres “perigo” e “risco de morte”. Na outra, ela mostrava duas pulseiras que atestavam o pagamento da aventura oferecida pela empresa Entre Cordas. Em uma delas estava escrito:
“vou voar e vou gravar!”
Maria Eduarda foi erguida e conduzida por três homens: Luis Felipe Feliciano Egoroff, Vitor de Freitas Gonçalves e Maicon Fernandes Cintra. Sem qualquer proteção, sem a corda que deveria sustentá-la, foi lançada de uma altura de quase 40 metros. Diversas pessoas que estavam no local registraram o terrível momento da queda. A jovem também tinha uma câmera amarrada ao corpo – afinal, como prometido pela empresa, ela voaria e gravaria. Pagou um pacote mais caro, R$ 290, para isso (o pulo sem câmera custava R$ 180).
A moça gravou seu voo para a morte. Esqueceram a corda para segurar Eduarda, mas não a câmera.
Atenção como recurso mais valioso
Existe uma lógica que governa o nosso tempo e que ficou escancarada nesse caso absurdo em Limeira: em um mundo em que a informação é abundante e o tempo humano é finito, a atenção virou o recurso mais valioso do planeta. Mais do que petróleo, mais do que dados. É feroz a disputa por ela, que, como vemos nesse caso onde dezenas de pessoas estão olhando o mundo através da tela do celular, já não nos pertence.
Em Dispersos em tempos de economia da atenção – a tecnologia e nós, Ana Carolina Cortez Noronha fala justamente sobre como a intensificação do uso das tecnologias digitais afeta o funcionamento do cérebro e dispersa nossa atenção. Brasileiros passam, em média, 3 horas e 37 minutos por dia nas redes sociais – é o terceiro maior tempo do mundo, atrás apenas de Quênia e África do Sul (dados do Digital 2024: Global Overview Report). Esse tempo/atenção é capturado, vendido, monetizado. E para que ele continue fluindo na direção certa, é preciso que o conteúdo seja cada vez mais extremo, mais veloz, mais intenso.
O rope jump é, nesse contexto, um produto perfeito. Combina adrenalina, imagem e o tipo de coragem performática que o algoritmo recompensa com alcance. A empresa Entre Cordas operava há anos (contava com 80 mil seguidores no Instagram e já tinha outras cinco datas já anunciadas para atividades, em São Paulo e em Minas Gerais). Não vendiam somente os saltos, mas principalmente as imagens dos saltos, vídeos “radicais” feitos com câmeras go pro e drones. Esse aqui mostra um pai levando o próprio filho no colo e se lançando no ar amarrado pelas cordas que, tempos depois, não foram atadas à Eduarda.
(Uma testemunha relatou para a polícia que viu um funcionário da empresa retirar a câmera GoPro do corpo de Eduarda quando ela estava no chão).
Nosso cotidiano como conteúdo
É preciso dizer que, ao contrário do que se lê em alguns comentários nas redes, a jovem não foi ingênua ou irresponsável. Ela – e toda sua família – são vítimas de uma tragédia, um episódio brutal. Em primeiro lugar, Eduarda confiou na expertise e competência de um grupo que vendia há muito um produto fartamente exibido nas redes, sem ser questionado pelas autoridades municipais. A empresa tinha obrigação de deixá-la em segurança.
Em segundo lugar, a jovem estava sendo racional dentro de uma lógica que nós ajudamos a construir e é o famoso espírito do tempo: oferecer nosso cotidiano como conteúdo. Ir até uma ponte abandonada, pagar para saltar dela, postar antes, durante e depois: esse é o roteiro exato que o ecossistema das plataformas ensina e recompensa. Algo que nós fazemos todos os dias. Algo que as pessoas que filmaram a jovem sendo arremessada estavam fazendo. Algo que eu poderia fazer se estivesse ali.
Significa dizer que a imagem do salto vale mais do que o salto. O registro da coragem vale mais do que a coragem. Nossa experiência de viver cedeu lugar à experiência de mostrar que se viveu. Em Stand Out of Our Light: Freedom and Resistance in the Attention Economy (Destaque-se da nossa luz: Liberdade e resistência na economia da atenção) o filósofo James Williams argumenta que as plataformas digitais não foram desenhadas para nos ajudar a atingir nossos objetivos – elas foram desenhadas para substituí-los. O que deveria ser meio virou fim, e o que deveria ser suporte à vida virou a própria vida.
Foco, presença e cuidado
Quero voltar ao texto de Ana Carolina Cortez Noronha: ela descreve como a economia da atenção nos condiciona a uma dispersão estrutural, uma incapacidade crescente de sustentar foco, presença e cuidado em profundidade. Não é preguiça ou falta de caráter, mas o resultado previsível de anos de exposição a um sistema projetado para nos manter em movimento constante, nunca parados o suficiente para perceber o que estamos fazendo – ou deixando de fazer.
‘Mas vivemos num tempo em que a atenção está tão fragmentada, tão habitualmente dispersa, que até onde ela deveria ser obrigatória, falha’.
Ao contrário da câmera, a corda não foi presa porque alguém obrigado a estar atento não prestou atenção. Registrar o salto era mais importante do que estar segura durante o salto. E num dia normal de trabalho numa empresa de saltos radicais, “não prestar atenção” deveria ser impossível, afinal cada passo do procedimento deveria ser uma barreira contra o esquecimento.
Mas vivemos num tempo em que a atenção está tão fragmentada, tão habitualmente dispersa, que até onde ela deveria ser obrigatória, falha. E o resultado da dispersão, da negligência, foi irreversível para Eduarda e sua família. O foco principal era ter mais gente na fila, mais imagens, mais vídeos e, inescapável dizer aqui, mais lucro.
Construímos, coletivamente, uma cultura em que “engajar” é um valor e “prestar atenção” é um estorvo.
Nessa cultura, empresas como a Entre Cordas existem e prosperam. Nessa cultura, pontes abandonadas viram cenários para conteúdo. Nessa cultura, como veremos em breve, prefeitos oportunistas encontram culpados antes de encontrar respostas e a cultura do estrupro se reafirma.
Não consumir a morte como conteúdo
Max Fisher, em A Máquina do Caos (Todavia, 2023), documenta como as plataformas de redes sociais foram deliberadamente projetadas para amplificar conteúdo que provoca reação emocional intensa, como raiva, medo, euforia e admiração. O rope jump é euforia pura. É exatamente o tipo de conteúdo que o sistema anima e recompensa, que o sistema transforma em produto. Eduarda não era inconsequente. Ela era, como você e eu, perfeita para o que o sistema pede.
Naquele sábado, tinha muita gente prestando atenção – mas na tela e na câmera, e menos na corda. Escrever isso não é simples. Porque ao mesmo tempo em que identifico essa lógica, sei que faço parte dela. Que você, que me lê, também. Que a crítica às redes acontece dentro das redes, que a denúncia do espetáculo virou espetáculo, que é muito fácil transformar a morte de uma jovem em argumento e oportunismo e muito difícil transformá-la em mudança.
Mas talvez seja justamente aí que esteja o único movimento possível: a recusa de deixar que tudo passe rápido. Insistir em parar, mesmo que brevemente, diante do que aconteceu. Em não consumir a morte de Eduarda como conteúdo, mais um item no scroll de um dia de notícia, mas em deixar que ela pese, que ela demore. Que ela nos obrigue a perguntar o que estamos fazendo com o único recurso que, diferente da atenção das plataformas, é genuinamente nosso: o cuidado. A atenção.
Maria Eduarda tinha 21 anos, era profissional de educação física. Gostava de atividades ao ar livre. Torcia pelo Santos. E num sábado de manhã, enquanto dezenas de câmeras estavam voltadas para ela, ninguém estava, de fato, olhando.
Oportunismo e misoginia
Há outra questão: a morte de Eduarda não é só uma história sobre redes sociais. A morte da jovem não é somente a morte da nossa atenção e o elogio à negligência. É também uma história sobre como o poder funciona no Brasil e sobre a velocidade com que os responsáveis buscam se afastar das tragédias para encontrar apenas um outro responsável. Também sobre como a cultura do estupro segue revelando a presença de qualquer traço de humanidade entre muita gente.
Quero falar sobre o primeiro aspecto aqui.
A Ponte do Esqueleto existe há mais de trinta anos. Nunca foi concluída. Abandonada há décadas pelo poder público federal, tornou-se ponto de lazer, trilha e, principalmente, cenário. Em 2024, o governo federal, através do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, solicitou o bloqueio do acesso e sinalização de perigo após a morte de uma ciclista e notificou a Prefeitura de Limeira sobre os riscos da estrutura. O acesso chegou a ser impedido pelo município também a pedido da União estadual. Mas políticos, grupos de ciclistas e empresários do turismo de aventura pressionavam, como lemos nessa matéria da Câmara Municipal de Limeira, pela reabertura. A ponte era ponto turístico em potencial, diziam. Um bom negócio.
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Mas momentos depois da morte de Eduarda, o prefeito da cidade, Murilo Félix, Podemos, anunciou que iria processar o governo federal por omissão, uma notícia cujo título, baseado somente na declaração do gestor, foi repetida fartamente também nas redes, sem qualquer ponderação. Sintetizando: após a tragédia, o prefeito mandou um já conhecido “a culpa é do PT” – e a imprensa assim repercutiu.
É difícil não se espantar com a agilidade e o oportunismo aqui. O imbróglio burocrático entre município e governos estadual e federal é real. Mas usá-lo como primeiro movimento público, antes mesmo das investigações, antes do luto, antes de qualquer prestação de contas sobre o que a prefeitura fez ou deixou de fazer em relação a uma empresa que operava ilegalmente num local de risco é de revirar o estômago. Em vez de apoiar-se somente na declaração, o jornalismo poderia trazer os fatos nos títulos (algo como “Ponte onde jovem morreu era disputada entre município e União” ou “Problemas em estrutura de ponte usada para saltos em Limeira levantam dúvidas sobre fiscalização”). Mas não: assim como o prefeito da cidade, usou a tragédia, a morte de Eduarda e na nossa atenção, para fazer, infelizmente, política.
Como se o combo de horror não bastasse, a misoginia também apareceu relacionada ao caso de Eduarda: nas redes, diversos homens publicaram comentários sobre a aparência da jovem, mostrando que a cultura do estupro não respeita a morte e a dor. Os perfis do Pretitudes, Brasil Fora da Caverna e Feminismo expuseram alguns dos perfis dos homens que manifestaram a mais pura misoginia. Aqui, a morte é de qualquer traço de humanidade.
A deputada federal Erika Hilton solicitou à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República a investigação de perfis nas redes sociais que fizeram publicações de caráter necrófilo e ofensivo sobre a morte da jovem.
A parlamentar classificou as postagens como um ataque grave à dignidade da vítima e de sua família, apontando que o conteúdo configura vilipêndio de cadáver e abuso psicológico. Hilton defende a identificação e a punição rigorosa dos responsáveis pelos perfis, argumentando que a prática não está protegida pela liberdade de expressão e deve ser combatida para evitar a normalização de discursos de ódio e a revitimização de familiares em luto. Expor esses homens e questionar quem os emprega é uma obrigação de todas nós.
Fonte:Intercept_Brasil- Reportagem Fabiana Moraes
Jornalista, professora e pesquisadora do Núcleo de Design e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (NDC/UFPE).
Para saber mais: Maria Letícia Maués Trindade escreveu um TCC sobre a questão da dispersão capitalizada. Além do foco: os impactos da economia da atenção das plataformas de mídias sociais na sociedade. ECA-USP, 2024. Disponível aqui. Em 2023, a revista Superinteressante publicou uma reportagem chamada A morte da atenção.
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