Até aquele momento, eu não sabia quem era Idalberto, o Dadá. Ele e Josiel se sentaram na minha mesa e, só então, fui entender o que estava acontecendo. Eu tinha sido chamado para uma armadilha.
A conversa não era sobre uma proposta de trabalho ou sobre um documentário, como Josiel havia avisado por telefone. Na verdade, Idalberto disse que estava ali a mando de um parceiro aposentado da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin, chamado Jairo, que, segundo ele, trabalhava para o advogado de Ronaldo Vieira Bento, ex-agente da Polícia Federal e ex-ministro da Cidadania do governo de Jair Bolsonaro.
Naquela época, eu apurava uma reportagem sobre repasses do Banco Master para empresas de Ronaldo Vieira Bento. Publiquei essa investigação, junto com o editor Eduardo Goulart, em 16 de junho. Antes do encontro na cafeteria, eu havia tentado fazer ligações e enviei mensagens para o ex-ministro, mas não houve resposta.
Ao sentar na mesa no Sebinho, Dadá começou a me dizer que estava ali para chegar em um “clima legal” de conversa sobre a investigação que eu estava fazendo. Surpreendido com o teor inesperado da conversa, já que eu só havia procurado Ronaldo Vieira Bento para falar sobre aquele assunto, comecei a gravar o papo.
Expliquei sobre a minha investigação e falei que estava à disposição para conversar com o ex-ministro ou seu advogado, mas Dadá simplesmente dizia não saber o nome.
“Não tem nada de errado no que a gente estava conversando, mas eu prefiro olho no olho. (...) Eu trabalho para muita gente, eu trabalho para o Carlinhos Cachoeira”, me afirmou Dadá, quando questionei o mistério sobre a conversa.
Confesso que, no momento em que entendi o que estava ocorrendo, fiquei um pouco sem reação e procurei ser um repórter simpático, aos moldes do que costuma ocorrer em Brasília. Mas, após 30 minutos de conversa, falei que tinha um compromisso e fui embora. Deixei a mesa do café com a promessa do Dadá de que receberia o contato do advogado de Ronaldo Vieira Bento posteriormente.
No dia seguinte, Dadá, o militar condenado por trabalhar para Carlinhos Cachoeira, sugeriu um novo encontro pessoal, desta vez na companhia do amigo dele chamado Jairo, que seria porta-voz do ex-ministro do Bolsonaro. Mas eu não aceitei. Ele me passou o número de celular de Jairo.
Enviei uma mensagem, e Jairo disse que falaria comigo em breve, mas nunca mais me respondeu. Mais tarde, descobri que ele é Jairo Martins, um ex-funcionário da Abin que também foi investigado por conexão com Carlinhos Cachoeira.
Ainda questionei o jornalista Josiel Ferreira no dia seguinte ao café no Sebinho sobre o encontro e deixei claro que me senti intimidado. Ele alegou que conhecia Dadá há muito tempo e que fez a ponte para uma reunião dele comigo, mas alegou que não sabia do conteúdo da conversa.
Conforme fui entendendo a gravidade da situação, comecei a disparar mensagens para os contatos que eu já tinha de Ronaldo Vieira Bento, questionando não só sobre a reportagem que apurava, mas também sobre um ex-militar e um ex-funcionário da Abin estarem me procurando e citando o nome do ex-ministro.
Só então fui contatado pelo jornalista Jailton de Carvalho, da Bravo Comunicação Estratégica, que se apresentou como assessor de imprensa oficial do ex-ministro de Bolsonaro. Ronaldo negou, via assessoria, qualquer contato com Dadá, Jairo ou Josiel. Também disse que não faria qualquer comentário sobre o assunto.
Cachoeira também negou, por meio do seu advogado Arthur Paulino de Oliveira, que exista uma “relação contemporânea com Idalberto Matias, sobretudo de índole profissional” entre ele e Dadá.
Até agora, sigo sem saber quem começou esse jogo de intermediários que não tem nenhum sentido lógico razoável a não ser o que senti: uma tentativa de intimidação.
Mas isso não me fez parar de investigar, e a nossa reportagem revelou que o ex-ministro Ronaldo Vieira Bento e empresas ligadas a ele receberam R$ 11 milhões diretamente do Banco Master nos últimos dois anos. A arapuca, definitivamente, não funcionou.
Esse foi só o primeiro bastidor que separamos para a nossa nova news Fechamento. Na próxima sexta, tem mais. Se você pudesse escolher, qual segredo ou bastidor de Brasília você gostaria que a nossa equipe fosse atrás para investigar? Responda a este e-mail com a sua sugestão. Bom final de semana!
Fonte:Intercept_Brasil
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