O repórter Thalys Alcântara recebeu um convite para tomar um café. Ao chegar, foi surpreendido por um espião de Carlinhos Cachoeira, que perguntou sobre reportagem investigativa que denunciava pagamentos do Banco Master a um ex-ministro de Bolsonaro.


Recebi um convite para um café com uma nova fonte em Brasília. Inicialmente, pareceu algo banal no cotidiano de quem faz jornalismo na capital federal, mas ao longo da conversa a história virou coisa de filme de agente secreto

Sabe por quê? É que fui surpreendido por um integrante das Forças Armadas, condenado por ser espião do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Ele me questionou sobre uma reportagem que eu estava escrevendo sobre um ex-ministro do ex-presidente Jair Bolsonaro, do PL. 

Escolhemos esse episódio para a estreia da newsletter Fechamento, que vai contar os bastidores das nossas investigações toda sexta-feira, aqui no seu e-mail. Pega seu café e vem comigo.

Entre o final de abril e começo de maio, recebi três ligações de Josiel Ferreira. Ele se apresentou como um jornalista que gostaria de conversar sobre uma proposta de trabalho, porque estaria planejando um “projeto grande voltado para a inclusão”. Tentei entender melhor o que ele queria por ligação telefônica, mas ele insistiu em um encontro pessoal. 

Achei meio estranho de início, mas Brasília tem dessas coisas. Já recebi propostas de trabalho das quais só se falava pessoalmente e até fui procurado por fontes que queriam repassar informações sigilosas e preferiam não explicar os detalhes por telefone.

Marcamos, então, um café no Sebinho da Asa Norte para o começo da tarde de uma segunda-feira. Enquanto tomava um café e comia um bolo de cenoura, avistei Josiel chegando no estabelecimento. Consegui reconhecê-lo pela foto do seu perfil no WhatsApp. Mas ele não estava sozinho. Ao seu lado estava um homem que, até aquele momento, eu não conhecia. Mas era ele o verdadeiro interessado naquele encontro.

O nome de quem acompanhava Josiel é Idalberto Matias de Araújo, um ex-sargento da Aeronáutica. Ele já foi preso e condenado por envolvimento com o esquema de jogo do bicho em Goiás, que seria comandado pelo contraventor Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira. O caso foi investigado na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal. 

Dadá, como o militar é conhecido, chegou a ser condenado a mais de 15 anos de prisão, mas não está preso porque o processo foi temporariamente suspenso por possíveis erros na coleta de provas na operação. Durante o auge das investigações sobre o esquema de jogo do bicho, Dadá ficou conhecido como o “araponga de Cachoeira”, termo usado para pessoas que fazem espionagem ou monitoramento ilegalmente. Detalhe: até hoje ele diz que trabalha para o contraventor.