Paulo Figueiredo, tal Avó, tal neto

Não foi apenas o espírito golpista que Paulo Figueiredo herdou do seu avô, o último presidente da ditadura militar, João Batista Figueiredo. A boçalidade e o desprezo pelas minorias também são heranças deixadas pelo ditador. Mulheres corajosas incomodavam o seu avô, que dizia não querer “aquela neguinha da Globo" perto dele. Ele se referia à jornalista Glória Maria, uma pedra no sapato dos machistas e racistas da época. 

Paulo Figueiredo, que tem muito orgulho do vovô, mirou na Michelle Bolsonaro e acabou atacando todas as mulheres. Justamente quando Flávio se contorcia para conter os danos causados pelo vídeo-bomba de Michelle entre o eleitorado feminino, o boçal jogou outro fogo-amigo: “Mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras não, isso que eu tô dizendo, pode arrancar os pentelhos das calcinhas, pode fazer o que você quiser”. A boçalidade foi alta demais até para os altos padrões de Damares Alves, que chamou a fala de “absurda".

O pré-candidato Flávio Bolsonaro só foi se pronunciar sobre o absurdo do seu aliado quase uma semana depois. Ele repudiou a fala, mas tudo não passou de uma cenazinha combinada com o próprio Figueiredo, que não fez questão de esconder: “Eu falei [ao Flávio] 'faça do limão uma limonada. Me desautorize publicamente. (...) Diga que eu não estou na sua campanha. Diga que discorda de mim. Diga que acha que mulher vota bem. Vota tão bem que vai votar em você’. É um ótimo discurso político".

A misoginia de Figueiredo vem no bojo de uma série de ataques que Michelle e suas aliadas têm sofrido por parte da militância bolsonarista. É o patriarcado bolsonarista mostrando para as mulheres bolsonaristas quem é que manda na seita. João Figueiredo sorri no inferno.


Coach distópico 

Nesta semana, descobri mais uma figura excêntrica dos nossos tempos. Leonardo Marcondes é influencer, coach financeiro, palestrante e ex-atleta de vôlei que mora em Balneário Camboriú, em Santa Catarina. Você já deve imaginar que, diante de todos esses atributos combinados, estamos diante do mais puro suco do reacionarismo brasileiro.

Marcondes é mais um desses tarados pela meritocracia. Ele acredita piamente que a vida é uma grande corrida em que todos têm as mesmas chances de vencer. Se você não venceu, é porque não se esforçou o suficiente. É por isso que Marcondes acredita que pobres não merecem votar. O influencer defendeu a tese de boca cheia para os seus 1,3 milhão de seguidores no Instagram. “Você já parou pra pensar que pobre não devia ter direito de votar? Uma pessoa pobre não soube tomar boas decisões para ter o melhor pra sua família e pra si mesma. Essa pessoa vai tomar uma decisão que vai ser a melhor para o país? (...) o mundo seria um lugar melhor se os pobres não votassem, se o poder de decisão de um país ficasse nas mãos dos ricos”, disse o coach financeiro enquanto comia pedaços de pitaia.

O coach propõe subverter um princípio básico da democracia: o sufrágio universal. Não importa que os dados da realidade espanquem diariamente essa narrativa delirante. O fetiche meritocrático é coisa séria. Se dependesse da vontade de figuras como Leonardo Marcondes e Paulo Figueiredo, apenas os homens ricos poderiam votar no Brasil. Eles não odeiam apenas os pobres e mulheres, mas, sobretudo, a democracia.

Fonte:Intercept Brasil