Cartazes com essa frase resumem o impasse peruano. Em nenhum país da América do Sul a representatividade política perdeu tanta credibilidade nas últimas décadas como no Peru. Desde que o presidente Pedro Pablo Kuczynski renunciou para evitar um impeachment em 2018, a erosão institucional e a instabilidade pioraram.
De lá para cá, foram oito presidentes em oito anos. Vários sofreram impeachment, e um foi derrubado pelas ruas. A força dominante no congresso por trás desta instabilidade, mesmo quando não teve maioria no Congresso, tem sido o fujimorismo.
Nas eleições disputadas em 7 de junho, a candidatura de Keiko Fujimori, do partido Força Popular, pretende levar esta política mafiosa de volta à presidência. Até agora, com 99% das urnas apuradas, Keiko lidera a disputa com uma margem de 1% à frente de Roberto Sánchez, da Juntos pelo Peru, de acordo com o Escritório Nacional de Processos Eleitorais.
Desde a renúncia de seu pai, mandada por fax do Japão em 2000, a Keiko se impôs na batalha familiar, candidatando-se três vezes (2011, 2016, 2021). Em todas elas perdeu no segundo turnopara o maior partido do país: o antifujimorismo.
Credencial duvidosa
Roberto Sánchez e Keiko Fujimori disputam o segundo turno no Peru
Em 2026, o rival de Keiko no segundo turno é Roberto Sánchez, um psicólogo e ex-seminarista vagamente identificado com a esquerda e com o último presidente eleito, Pedro Castillo, de quem foi ministro. No entanto, esta é uma credencial duvidosa: Pedro Castillo (2021-2023) teve um mandato desastroso, que terminou com uma tentativa de autogolpe, que levou à sua destituição e à prisão.
Na prisão de Barbadillo, localizada nos arredores de Lima, é conhecida como a “prisão presidencial”, Castillo juntou-se a três ex-presidentes presos: Alejandro Toledo (2001-2006), Ollanta Humala (2011-2016) e Martín Vizcarra (2018-2020).
Keiko contava com a classe dominante e a cumplicidade da classe política, mas tinha escasso apoio popular. Sánchez passou ao segundo turno vencendo um candidato de extrema direita por um fio, mas depois da derrocada de Castillo,não empolgou as massas.
Mais do que uma polarização, observa-se no Peru uma aguda fragmentação, inclusive dos ódios. O primeiro turno foi disputado por 35 candidatos e a mais votada obteve 17% – aproximadamente um em cada seis eleitores.
No segundo turno, a promessa de uma violência que ordena encarnada por Keiko foi vista como o outro lado da desordem que ela mesmo alimenta.Como alternativa, o voto em Sánchez muitas vezes não foi por ele, mas contra o fujimorismo.
Para entender como o Peru chegou a esta versão extrema da política do mal menor, é preciso voltar ao mal maior.
Autoritarismo popular
Se a Colômbia foi pioneira na política do ódio, o Peru esteve na vanguarda do autoritarismo popular no continente. Alberto Fujimori (1990-2000) ambicionou uma ditadura com fachada democrática. É certo que “El Chino”, apelido de Fujimori, não foi eleito com este programa. Na realidade, o presidente fez um ajuste estrutural, o “Fujishock”, e teve como lema de campanha “Vote no al shock!“. Naquele momento, derrotou a arrogância do escritor Mario Vargas Llosa, cujo perfil neoliberal teve a virtude da franqueza.
No final dos anos 1980, reinava um clima de desordem no país. A inflação superava 7000% e o Sendero Luminoso (o Partido Comunista do Perú) trazia para a capital atos terroristas que perverteram a utopia guerrilheira. Era um clima propício para o que Naomi Klein descreveu como a ”doutrina do choque”.
A versão peruana deste ”capitalismo de desastre” envolveu uma relação simbiótica entre presidência e exército, consumada no autogolpe de 1992,quando Fujimori dissolveu o parlamento e interveio no judiciário.
Acontece que o choque estabilizou a economia, enquanto o terrorismo de estado liquidou o Sendero: aos olhos de muitos, “El Chino” colocou ordem na casa. Isso explica, em parte, a popularidade herdada por seus filhos. Este regime também assentou os fundamentos do extrativismo mineiro que impulsionaram o país desde então, ao mesmo tempo em que se acentuou a corrosão do tecido social.
Desde o fim do regime militar nos anos 1970, nenhum presidente elegeu seu sucessor – o que significa que sempre venceu um candidato da oposição, como na Guatemala. No entanto, nenhum opositor cumpriu as mudanças que prometeu. E apesar das alternâncias, o progressismo não teve vez.
Esquerda criminalizada
Como na Colômbia,a esquerda peruana foi criminalizada.A prática de rotular militantes como terroristas ficou conhecida como “terruqueo”. Nos dois países sul-americanos em que houve guerrilhas depois do fim da Guerra Fria, não houve umaonda rosa no começo do século XXI.Isso significa que o progressismo nunca cumpriu no Peru um papel estabilizador comparável aoMovimento Al Socialismo, MAS, de Evo Morales na Bolívia, nem ao Alianza Paísde Rafael Correa no Equador.
Em anos recentes, o fim da hegemonia do MAS na Bolívia mergulhou o país novamente na instabilidade, enquanto no Equador, Daniel Noboa tenta espelhar a estabilidade violenta deNayib Bukele.
A continuidade da alternância de poder corroeu a legitimidade da política institucional no Peru, que se aprofundou sob a presidência de Kuczynski. Nas eleições de 2016, este economista neoliberal superou Keiko por 0,24% dos votos. Mas na presidência, foi impotente para sair da sombra desta força política, que controlava o congresso. Contrariando um compromisso de campanha, Kuczynski deu o indulto ao ex-ditador Alberto Fujimori, que estava preso, para evitar um impeachment.
Foi umavitória de Pirro, isto é, custou tão caro que quase equivale a uma derrota: em março de 2018, Kuczynski renunciou, antecipando-se ao impeachment articulado pelos rivais.
Um ano depois, o ex-presidente foi detido em investigações envolvendo a Odebrecht, empresa que doou à Lima uma obra inspirada no Cristo Redentor carioca, e que os peruanos conhecem como “Cristo de lo robado”.
Kuczynski não era o primeiro: naquelas alturas, investigações ligadas à Lava-Jato haviam condenado três ex-presidentes peruanos, enquanto Alan García (1985-1990 e 2006-2011) se matou para evitar a prisão. No Peru, as investigações de corrupção não se partidarizaram como no Brasil.E o poço da degradação política parece não ter fundo.
Turbulência seguiu
Com a renúncia de Kuczynski, seu vice assumiu o posto, mas a turbulência continuou. Martín Vizcarra (2018-2020) governou para os empresários ao mesmo tempo em que confrontou o fujimorismo. Neste processo, recorreu a um mecanismo constitucional extremo, dissolvendo o parlamento no final de 2019.
Porém, o Congresso empossado em março de 2020 foi uma continuidade do anterior. Uma gestão desastrosa da pandemia somada a denúncias de corrupção jogaram lenha na fogueira de quem desejava fritar o presidente, o que aconteceu no final de 2020: Vizcarra foi destituído, em um processo de impeachment que muitos interpretaram como um golpe de estado.
A surpresa no caso peruano é que, diferente do que aconteceu com Lugo no Paraguai ou Dilma no Brasil, a deposição de Vizcarra destampou protestos massivos em todo o país. Em plena pandemia, os manifestantes expressaram raiva diante de uma política decrépita, desconectada das necessidades e dos sentimentos populares. Como resultado, o presidente golpista Manuel Merino foi obrigado a renunciar cinco dias depois de empossado.
Progressismo nunca chegou
Nas eleições que seguiram em 2021, o novo não teve a cara do progressismo encarnado pela jovem Verónika Mendoza, que quase chegou ao segundo turno no pleito anterior. Mas irrompeu na figura do professor e sindicalista Pedro Castillo montado à cavalo e portando um lápis, de quem ninguém falava, nem esperava nada. No Peru, o tempo do progressismo passou, sem nunca ter chegado.
Mais além da ideologia contraditória de Castillo, em que pautas da esquerda estatista se mesclavam a uma moral conservadora, o ex-presidente encarnou as esperanças de um Peru profundo. Ou para ser mais preciso, de um Peru profundamente fraturado, o que se revelou no mapa eleitoral: voto conservador em Lima, versus triunfo de Castillo nas regiões rurais e mais pobres. Ironicamente, os votos que podem decidir a vitória de Keiko não vieram nem de um nem de outro, mas dos peruanos no exterior.
No entanto, estas expectativas também se frustraram. Castillo se revelou como um presidente volúvel e inepto, que foi desperdiçando os poucos apoios que tinha para enfrentar poderes fáticos hostis. Terminou sofrendo uma rasteira do congresso quando tentou dissolvê-lo e instaurar um estado de exceção.
Mesmo sem ter maioria, o fujimorismo controlava o congresso que endossou – e depois tirou –Dina Boluarte(2022-2025). A vice-presidente se notabilizou pela violência contra manifestantes, pelas leis pró crime e por usar relógios e jóias não declaradas,no escândalo conhecido como Rolexgate.
Paradoxalmente, a falta de um partido e de popularidade lhe permitiu sobreviver quase três anos à frente de um governo em que não mandava. Com uma taxa de aprovação em torno de 3%,Boluarte era a presidenta mais impopular do mundo quando foi deposta no final de 2025. Desde então, dois congressistas assumiram a presidência interina do país.
Hegemonia da direita
Se confirmada, a vitória de Keiko Fujimori reforça a hegemonia regional da direita. Mas diferente de outros contextos em que a direita radical mobiliza desejos e esperança, em quem votou em Keiko gosta dela. Tampouco Trump saiu para apoiá-la. Se chegar ao poder, a direita pode ser extrema, mas não é nova para o país nem para o poder.
O máximo que a oposição conseguiu nas últimas décadas foi manter o fujimorismo fora da presidência. Mas ao menos desde 2016, esta facção mafiosa da política peruana controla o congresso, que controla o país.
Neste período, as principais instituições regulatórias responsáveis pelo equilíbrio de poderes foram capturadas, enquanto as ferramentas legais para enfrentar o crime organizado e a corrupção foram esvaziadas. No caso de uma vitória de Sánchez, isso significaria obstáculos enormes para uma gestão digna, ainda que politicamente moderada. Vencendo Keiko, significa que muito do trabalho sujo para blindar o “pacto dos corruptos” já foi feito. Em um caso como no outro, os negócios continuam.
Resta saber se Keiko buscará uma solução autoritária para a crise de hegemonia que se arrasta há décadas. Será que seu governo reatará com a obra do pai, que à maneira de outras ditaduras do continente, parece nunca terminar?
Fonte:Intercept_Brasil-Reportagem Fabio Luis Barbosa dos Santos
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Instabilidade política abriu caminho para avanço de Keiko Fujimori no Peru
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